quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Que leitura fazem os políticos do conceito de Animação...

Os políticos, em especial, aqueles que exercem funções executivas nas autarquias, nomeadamente no Pelouro da Cultura, ou que aspiram a tal, banalizam e até demonstram alguma "ignorância" quando se referem à actividade do sector cultural autárquico. Uma das razões para esta leviandade de discurso, deve-se à banalização no quotidiano de um conjunto de ideias e conceitos que recorrentemente são aplicados em linguagem técnica, nomeadamente, no exercício da prática de Animação Sociocultural. Hoje aplicamos a expressão “animação” a um conjunto disparo de actividades que muitas delas, nada têm de Animação, se interpretarmos este conceito à luz da metodologia da Animação Sociocultural.

Recentemente um político em declarações a um órgão de comunicação social da Região (Diário de Notícias da Madeira), referia-se à actividade cultural de um município, acusando os seus responsáveis de desenvolverem uma agenda de animação e não uma agenda cultural, que apenas se diferencia dos outros concelhos pelo cartaz de artistas que apresenta.

Esta realidade é preocupante quando parte da classe política com aspirações à gestão da autarquia. E esta ideia de Animação Cultural transita para os processos de gestão autárquica que em vez de se pautarem pela diferença, por uma política de acção cultural participada, infelizmente, promove mais do mesmo. Não podemos confundir um projecto de Animação Sociocultural com um desfile de eventos que se realizam ao longo do ano. O que muitas autarquiasdesenvolvem desde o sector cultural é uma agenda cultural ou se preferirmos um processo de gestão cultural de nível local.

Paradoxalmente, o mesmo político defendeu um projecto cultural que envolva a comunidade local, particularmente os jovens. "Queremos que os jovens sejam actores desse processo, onde haja animação cultural, seja no teatro, na dança ou em actividades ligadas às escolas".

É evidente que as empresas municipais para a cultura, actualmente são duas na Região Autónoma da Madeira, vêm de alguma forma legitimar a continuidade de uma agenda cultural e não de verdadeiros processos participativos à luz da metodologia da Animação Sociocultural. Entendo que é possível conciliar estas duas realidades no âmbito local.

2 comentários:

mário montez disse...

Algumas evoluções têm existido quanto à representação da ASC. Resultado disso são a selecção de técnicos de ASC para instituições e a abertura de alguns cursos com ideia correcta da ASC. No entanto, há ainda um enorme equívoco quanto ao termo Animação. Sendo uma palavra universalmente utilizada, ela contempla diversas utilizações e naturezas que não importa especificar agora.
Contudo, os erros mais comuns dirigidos à ANIMAÇÃO SOCIOCULTURAL são efectivamente dados por representantes do poder local e da administração pública. Paradoxalmente, alguns deles participaram nas primeiras aventuras de ASC após o 25 de Abril e os outros sabem que é preciso ASC na implementação de políticas locais e regionais. Infelizmente deixam-se levar (mais uma vez) pelas tendências em voga confundindo a animação e “animaçãozita” dos concertos e cortejos, tão utilizado popularmente, com o nosso trabalho para a participação comunitária e desenvolvimento social, a que politicamente se reconhece importância.
A minha forma de estar leva-me a acreditar que o problema nunca reside apenas numa das partes. Admito que o erro também está na forma por vezes “fechada” como a comunidade da ASC vive as suas questões. Por isso, sugiro que se realize um conjunto de acções de informação e esclarecimento sobre a ASC, frisando a sua importância e implicações práticas na implementação de políticas públicas, locais e regionais e nas organizações, tendo como participantes representantes políticos, do ensino superior e técnico-profissional, e técnicos de IPSS’s e outras organizações de desenvolvimento. Um evento sobre ASC, virado para fora, para quem não sabe o que a ASC representa ou pode fazer. Uma iniciativa que poderá ter o apoio da APDASC, por exemplo. Pelo meu lado, estou disposto a avançar.
Mário Montez

Albino Viveiros disse...

Felizmente tive a oportunidade de participar em diversos encontros de Animação Sociocultural, nos quais sempre se discutiu de forma aberta as questões da formação e profissionalização dos Animadores Socioculturais. "Infelizmente" esses debates eram participados por pessoas com formações antagónicas à Animação que leccionavam nos cursos profissionais de Animação Sociocultural transparcendo, uma imagem pouco digna do saber-fazer dos Animadores.

Há que ter a consciência de que não é fácil sentar toda uma panóplia de pessoas que formações tão distintas, com visões tão disparas de uma realidade profissional, da qual, os próprios Animadores não conseguem passar à prática a revindicação de questões que primeiramente têm que ser interiorizadas pelos próprios e aplicá-las no quotidiano institucional.

Os responsáveis pela gestão executiva das inúmeras instituições públicas e privadas, vocacionadas para o desenvolvimento comunitário deverão manifestar abertura suficiente e procurar aprofundar o conhecimento acerca da Animação Sociocultural.

Nós Animadores temos quota parte de responsabilidade face à realidade em que se encontra a Animação Sociocultural. Eu próprio tive a oportunidade de defender em diversos espaços de debate, a realização de encontros nas instituições que leccionam o curso de Animação, com o objectivo de debater estas e outras questões.

O desafio foi lançado, resta esperar, talvez, por mais do mesmo.

Albino Viveiros