quinta-feira, 16 de junho de 2016

Receção de artigos para a revista Práticas de Animação

A revista Práticas de Animação é um projeto editorial que tem privilegiado a reflexão sobre o corpus teórico e as práticas de animação sociocultural, numa perspetiva interdisciplinar e de reflexão plural partilhada por animadores, investigadores e outros atores sociais com experiências e vivências profissionais que permitem posicionarem-se no campo teórico-prático da animação sociocultural.

É nosso desiderato reunir um conjunto diversificado de contributos que aclarem sobre as dinâmicas da animação sociocultural e sejam achegas para a reflexão nos múltiplos contextos de intervenção.

Os artigos poderão versar sobre a animação sociocultural, animação socioeducativa, animação turística, o ócio, o lazer e os tempos livres, as políticas culturais, a pedagogia social e a educação sociocomunitária entre outros domínios de investigação e intervenção priviligiados para a ação dos animadores.

A revista integra o projeto de animação digital «AD» com a Quaderns d’ Animació i Educació Social e a revista internacional Animación, territórios y prácticas socioculturales.

Neste quadro de realização está aberta a participação a todos os interessados em colaborar no próximo número da revista. Para tal poderão enviar os respetivos contributos até o próximo ao fim do mês de setembro de 2016, para o e-mail: revistapraticasdeanimacao@gmail.com 

segunda-feira, 25 de abril de 2016

O que faz falta

O que faz falta é animar a cidadania. Vivemos tempos sombrios onde não há espaço para a democracia participativa, um tempo de desresponsabilização face às grandes linhas estratégicas de ação coletiva. Falta uma pedagogia da militância política não partidária e democrática. É chocante a falta de (des)envolvimento dos sujeitos nas questões coletivas de interesse comum à vida comunitária.

O que faz falta é desenvolver uma pedagogia de e para a cultura com todos. O poder político no exercício das funções que lhe são confiadas, não pode ignorar a história social e cultural da comunidade. É preciso conhecer, dignificar e partilhar um passado comum para desenhar um programa político no quadro da realização da cultura.

A ação cultural é um processo contínuo de valorização dos saberes-fazeres dos sujeitos, de enobrecimento das identidades e da cultura. O que faz falta é exercitar quotidianamente uma pedagogia para a cultura, fomentar a cidadania cultural dos sujeitos, potenciar as organizações de base para que contribuam ativamente para o desenho de uma política cultural de continuidade e não ações avulsas, capricho de um ou outro político.

O que faz falta é a solidariedade humana em tempos de incertezas sociais, culturais e económicas. É urgente educar para uma cultura de paz, de solidariedade humana, fomentar o sentido do bem comum. Faz falta, cada um ser cidadão comprometidos com os seus grupos de pertença, com a comunidade que contribuiu para a afirmação da sua identidade e comummente dos valores socioculturais.

O que faz falta é educar os homens e as mulheres do futuro. A cidadania começa na escola mas não se esgota dentro dos seus muros. A educação não pode ser, apenas, a transmissão unilateral de conhecimento, antes, e cada vez mais, deverá caracterizar-se por ser um processo de aprendizagens não formais e informais, onde os jovens sejam o centro das dinâmicas educativas. É desejável um processo educativo profusamente ligado à comunidade. 

domingo, 27 de março de 2016

Mensagem do Dia Mundial do Teatro 2016

Dia 27 de março, Dia Mundial do Teatro


«Será que precisamos de teatro?

Esta é a questão que milhares de profissionais dececionados com o teatro, e que milhões de outras pessoas que estão cansados dele, perguntam a si próprios.

Para que é que precisamos dele?

Nos anos em que a cena é tão insignificante quando comparada com os bairros das cidades e capitais do mundo, onde estão em cena as autênticas tragédias da vida real.

O que é para nós?

Galerias e balcões dourados em salas de espectáculo, braços de cadeiras aveludadas, bastidores sujos, vozes de actores bem polidas, ou vice-versa, algo que pode ser aparentemente diferente: caixas negras, manchadas com lama e sangue, com um amontoado de corpos nus dentro.

O que é capaz de nos dizer?

Tudo!

O Teatro pode dizer-nos tudo.

Como os deuses habitam nos céus, e como os prisioneiros definham em caves subterrâneas esquecidas, e como as paixões nos podem elevar, e como o amor nos pode abater, e como ninguém precisa de uma boa pessoa neste mundo, e como a mentira reina, e como as pessoas vivem em apartamentos, enquanto crianças murcham em campos de refugiados, e como todos eles terão que voltar ao deserto, e como, dia após dia, somos forçados a nos separar dos nossos entes queridos, - o teatro pode dizer-nos tudo.

O teatro tem sido, e manter-se-á eterno.

E agora, nestes últimos cinquenta ou setenta anos, é particularmente necessário. Porque se observamos como está a arte popular, vemos imediatamente aquilo que apenas o teatro nos está a dar - uma palavra de boca a boca, um olhar de olho a olho, um gesto de mão a mão, e de corpo a corpo. Não precisa de intermediários para trabalhar junto dos seres humanos, -constitui a parte mais transparente da luz, não pertence ao sul, ao norte, este ou oeste, - oh não, é a própria essência da luz, a brilhar nos quatro cantos do mundo, imediatamente reconhecido por qualquer pessoa, quer seja hostil ou amigável para com ele.

E nós precisamos de teatro que permanece sempre diferente, nós precisamos de teatro de diferentes géneros.

Mesmo assim, penso que de todas as possíveis formas e contornos do teatro, são as suas formas mas arcaicas que terão atualmente uma maior procura. O teatro de formas rituais não se deve opor artificialmente ao das nações ditas “civilizadas”. A cultura secular está cada vez mais emasculada, a chamada “cultura informativa” gradualmente substitui e faz desaparecer entidades simples, bem como a nossa esperança de as encontrar um dia.

Mas eu agora vejo-o claramente: o teatro está a escancarar as suas portas. Admissão livre para todos.

Para o inferno com os aparelhos e computadores – vão simplesmente ao teatro, ocupem filas inteiras nas plateias e nas galerias, ouçam o mundo e vejam as imagens vivas! – é o teatro na vossa frente, não o negligenciem e não percam uma oportunidade de participarem nele – talvez seja a oportunidade mais preciosa que partilhamos nas nossas vidas apressadas e egocêntricas.

Precisamos de todos os géneros de teatro.

Existe apenas um teatro que seguramente não é necessário para ninguém – refiro-me ao teatro do jogo político, o teatro das “armadilhas” políticas, o teatro dos políticos, o fútil teatro da política. O que nós seguramente não precisamos é do teatro do terror diário – quer seja individual ou colectivo, o que nós não precisamos é do teatro dos corpos e do sangue nas ruas e praças, nas capitais e nas províncias, o teatro falso das batalhas entre religiões e grupos étnicos…»

 Anatoli Vassiliev

Tradução do Russo para Inglês: Natalia Isaeva
Tradução para Português: Bruno Daniel Gomes, com revisão de Fernando Rodrigues (FPTA - Federação Portuguesa de Teatro)

terça-feira, 8 de março de 2016

ANIMA 2016 - Encontro Internacional de Animação Sociocultural


«Novas oportunidades de emprego e inclusão para jovens de risco» é o tema do ANIMA 2016 – Encontro Internacional de Animação Sociocultural que se realizará entre os dias 15 de março e 01 de abril, disseminado em dezenas de eventos de animação sociocultural e educativa que terão lugar nas cidades de Coimbra, Famalicão, Póvoa de Lanhoso e Praia (Cabo Verde), com representantes de 7 países.

No ANIMA há a destacar a conferência internacional «Empregabilidade Juvenil e Acesso ao Ensino Superior», o espetáculo «Há dias em que tudo muda...», as jornadas de trabalho em Cabo Verde e a Semana de Campo.


O formato metodológico das conferências será de estudo de caso, com a participação dos protagonistas, seja através do espetáculo incluídos nas conferências, seja através do seu testemunho real. De acordo com a organização Serão os jovens, agentes educativos os protagonistas de todos os momentos de debate, intervenção e espetáculo, estando reservado para os especialistas o papel de avaliadores e comentadores. 

Os workshop's serão eminentemente práticos e com demonstração real. O Encontro está integrado no Programa Erasmus + da União Europeia.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Carta aberta em defesa dos profissionais da animação sociocultural

A CERCA DE LA INCOMPRENDIDA Y MALTRATADA PROFESIÓN DE LA ANIMACIÓN SOCIOCULTURAL

El perfil profesional del animador sociocultural últimamente se ha visto catapultado a la palestra mediática, gracias a la repercusión que han tenido las declaraciones realizadas por el ex-presidente de la intervenida Caja Castilla-La Mancha, (CCM) ante el juez que lleva la causa contra él y otros directivos de la misma por administración desleal y falseamiento de cuentas entre otros delitos imputados.

En dichas declaraciones identificaba (no sólo comparaba) su función en la CCM con la de un animador sociocultural,  para tratar de justificar su ignorancia sobre las cuentas de la Entidad y su incompetencia en materia ejecutiva,  exculpándose de este modo de sus responsabilidades presidenciales y delitos que se le imputan. Con ello,  el Sr. Hernández Moltó no sé si demostrará su ignorancia ante el juez en materia bancaria, pero lo que sí demuestra es su ignorancia (quiero pensar que no maledicencia) sobre lo que es un animador sociocultural.

No obstante y pese a la desafortunada ocurrencia, tanto dicho símil como su autor  parece que “han hecho fortuna” con este ejercicio (real o simulado) de intrusismo profesional,  habiendo encontrado estas manifestaciones  amplio eco e ingeniosa glosa por parte de comentaristas y periodistas en diferentes medios,  entre los que sobresale el artículo de opinión de Jesús Mota, aparecido en El País el pasado 4 de febrero,  texto en el que se llega a asociar la profesión del animador sociocultural con la de showman y presentador de TV.

Hemos de reconocer que el perfil  de los animadores socioculturales aún no es suficientemente conocido entre el público en general y su polivalencia tanto conceptual como profesional  se presta a posibles confusiones con otras figuras de la animación que no llevan el apellido sociocultural. Pero precisamente por ello,  en nada contribuyen a su clarificación y dignificación,  la amplificación mediática y glosa periodística de comentarios como los aludidos.

Por todo ello y con el fin de contrarrestar esta ceremonia de la confusión derivada de la ignorancia (quiero pensar que no de la maledicencia) sobre las auténticas funciones de los animadores socioculturales,  desde la Red Iberoamericana de Animación Sociocultural que tengo el honor de presidir queremos manifestar nuestro malestar por esta situación y hacer algunas aclaraciones al respecto:

1. La animación sociocultural es una disciplina y una profesión oficialmente reconocidas en sus diferentes modalidades y niveles formativos y académicos, que tiene por misión principal la de educar en la participación implicando a sus destinatarios en el disfrute y desarrollo de proyectos y actividades socioculturales de su interés para mejorar su calidad de vida y la de su entorno.

2. Los animadores y las animadoras socioculturales, por tanto, son profesionales cualificados cuyo trabajo ha de estar acreditado por una titulación oficial profesional o académica que habilita para el ejercicio de su profesión dentro del sector de los Servicios Socioculturales y a la Comunidad o de la Educación Social respectivamente.

3. En razón de lo anterior, pueden existir (y de hecho existen) animadores socioculturales trabajando en entidades bancarias, especialmente dentro de sus Fundaciones y Obras Socioculturales, en cuanto gestores  y dinamizadores de los proyectos socioculturales que éstas ofertan. Pero ciertamente ni con el sueldo,  ni con las competencias y responsabilidades que ha de tener un presidente o directivo de entidad bancaria.

4. La Animación Sociocultural es una didáctica de la participación y educa en valores a través del ocio,  del juego y de las actividades sociales y culturales,  para empoderar a las personas de manera que puedan ser ciudadanos activos y responsables en una sociedad democrática. Una profesión que de fomentarse y valorarse  más de lo que se fomenta y valora por los poderes  políticos,  públicos y mediáticos, posiblemente evitaría situaciones y personajes como los que acabamos de aludir.

Víctor J. Ventosa Pérez
Presidente da Rede Iberoamericana de Animação Sociocultural (RIA)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Revista Práticas de Animação

Está online a revista Práticas de Animação, número 8. O número atual conta com uma diversidade de contributos, de investigadores, docentes e animadores socioculturais, de Portugal, Espanha e América Latina. 

A revista afirma-se como um projeto editorial no quadro teórico da reflexão e da investigação no campo da animação sociocultural, educação social, lazer, ócio e do trabalho comunitário. O número agora publicado é a expressão materializada da participação de diferentes atores sociais que, a partir das suas práticas profissionais e de investigação contribuem para a clarificação, sedimentação e fortalecimento de uma rede de conhecimentos sobre diferentes metodologias e práticas de ação sociocultural com as comunidades.

Foi firmado com o prof. doutor Mario Viché, editor da revista Quaderns d' Animació i Educació Social o projeto de intercâmbio editorial «Animação Digital» desde o número anterior da Práticas de Animação. Este é um propósito forte na afirmação das publicações periódicas digitais no âmbito da animação sociocultural e da educação social. 

domingo, 10 de janeiro de 2016

A profissão do técnico de juventude

Na sequência das conclusões das II Jornadas de Educação Não Formal «Instrumentos de Validação de Competências Adquiridas em Contextos de ENF e Youth Work» realizadas a 10 de dezembro de 2014, sob a égide do Conselho Nacional de Juventude, conclusões essas, que dedicamos alguma atenção na escrita dos posts «As conclusões das II Jornadas de Educação Não Formal» e «A figura profissional do animador de juventude», sobretudo, pelo discurso incisivo do grupo de trabalho na defesa urgente do reconhecimento social e político do conceito de youth work, do enquadramento legal da figura do youth worker (animador de juventude), do estatuto profissional, da formação, do perfil e do código de ética.

A discussão sobre a emergência social da figura profissional do animador de juventude teve um efeito político instantâneo, com a aprovação da Resolução da Assembleia da República n.º 2/2015, que recomenda ao Governo a regulamentação da criação da profissão do animador de juventude «… em harmonia com a condição do “youth worker”, incluindo tal profissão no Catálogo Nacional das Profissões, …».

Em abono da verdade, importa referir que tal iniciativa legislativa adveio do Projeto de Resolução n.º 1171/XII/4.ª datado de 04 de dezembro de 2014, subscrito por um grupo de deputados, do grupo parlamentar do partido da maioria do XIX Governo Constitucional. A integração da profissão de técnico de juventude, à qual, corresponde um nível 4 de qualificação no Catálogo Nacional de Qualificações, foi publicada no Boletim do Trabalho e Emprego, n.º 45, de 8 de dezembro de 2015. 

Conforme a descrição geral do perfil profissional, ao técnico de juventude compete intervir na conceção, organização, desenvolvimento e avaliação de projetos, programas e atividades com e para jovens, através das metodologias do domínio da educação não formal, facilitando e promovendo a cidadania, a participação, a autonomia, a inclusão e o desenvolvimento pessoal, social e cultural. 

A criação da profissão do técnico de juventude e o perfil de competências adstritas à profissão suscitam questões que continuam a nos inquietar enquanto animadores socioculturais. Na verdade, criou-se uma profissão para a qual, entendemos haver uma figura profissional que se encaixa no perfil desenhado: o técnico de animação sociocultural. Esta é a a subversão de uma realidade social e política existente no nosso país, face à qual, os animadores socioculturais estão em desvantagem política. 

Importa alertar para o facto de que, as competências atribuídas ao perfil profissional do técnico de juventude conjugam-se com as competências do perfil do animador sociocultural. 

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Recomendações sobre a participação dos cidadãos na vida cultural (II)

O Conselho Nacional de Educação com a Recomendação sobre Educação Artística contribui, a nosso ver, de forma incisiva para a consciencialização política e cívica, com maior determinação no campo cívico, da necessária articulação das políticas culturais com as políticas educativas e vice-versa, no domínio da educação artística como pilar do desenvolvimento humano individual e do grupo na suas dimensões social, educativa e cultural.

Na recomendação, o Conselho elege o conceito de educação artística para destacar a visão global que integre as aprendizagens das diferentes linguagens artísticas (artes plásticas, música, dança, teatro, cinema e artes digitais), numa perspetiva valorizadora da criatividade, da comunicação e do conhecimento dos patrimónios histórico, artístico e contemporâneo. O Conselho Nacional de Educação reforça o reconhecimento da importância da educação artística para o desenvolvimento humano, proporcionando a todos uma cultura artística, a fruição das manifestações artísticas e a expressão da criatividade; a promoção de uma dinâmica evolutiva que ultrapasse as dicotomias «conhecer» versus «fazer» e «apreciar» versus «criar», sem perder a noção da importância dos seus polos como dimensões importantes a fomentar numa interacção que as contemple e promova.

Na Recomendação sobre Educação Artística, o Conselho sugere a integração de componentes de educação artística de forma articulada nos projetos municipais de educação, bem como, nos projetos educativos das escolas; o reforço da utilização dos recursos culturais e artísticos, incentivando-se as parcerias e outras formas de colaboração entre os agentes artísticos, as organizações locais e nacionais capazes de contribuir para a formação artística; ofertas de formação e actividades extra-escolares. Por fim, e não menos importante está a recomendação que sintetiza o que subscrevemos em sentido global: «Que, ao nível das políticas públicas, os sectores da Educação e da Cultura articulem programas e recursos particularmente vocacionados para a educação artística».

A participação cidadã na vida cultural das comunidades também se materializa pela promoção das artes e na espectável articulação com os processos de mediação artística. A participação dos cidadãos é um processo de aprendizagem permanentemente evolutivo, mas que deverá ser orientado e experienciado através de um conjunto de recursos comunitários. O trabalho de mediação artística não é exclusivo de um grupo de artistas é antes, uma responsabilidade partilhada por todos os agentes da cultura, da educação e do social, comprometidos com o desenvolvimento comunitário. É nesta família que se integra os animadores socioculturais.

domingo, 29 de novembro de 2015

Recomendações sobre a participação dos cidadãos na vida cultural (I)

O debate e consequentemente as recomendações sobre a participação individual e coletiva dos cidadãos na vida cultural da comunidade são matérias reunidas num conjunto de diretrizes emanadas, em particular, pela UNESCO e, numa perspetiva global de educação para a cultura,  pelo Conselho Nacional da Educação.

É nosso entendimento que as recomendações propostas têm uma alcance temporal infinito, são de leitura transversal a vários âmbitos de intervenção e documentos úteis para um conjunto de agentes que intervém no território sociocultural, mas, de forma peculiar, o seu conhecimento poderá ser útil e de importância acrescida no debate sobre os campos de intervenção da animação sociocultural e na compreensão difusa sobre o trabalho dos animadores socioculturais.

A UNESCO na recomendação relativa à participação e ao contributo das massas populares na vida cultural (1976), recorda o artigo 27º da Declaração Universal dos Direitos do Homem: «Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade, de fruir das artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste resultam».

Aquele organismo considera a cultura como forma integrante da vida social, que pela sua própria natureza é um fenómeno social, resultado da criação comum dos homens e da ação exercida uns sobre os outros. Acrescenta que, o acesso à cultura e a participação na vida cultural são dimensões complementarias de uma mesma realidade e sublinha que sem participação, o simples aceso à cultura está muito aquém dos objetivos do desenvolvimento cultural. Para a UNESCO a participação na vida cultural é a possibilidade efetiva e real do indivíduo ou do coletivo de expressar-se, comunicar, atuar e criar com o objetivo de assegurar o seu próprio desenvolvimento, uma vida harmoniosa e o progresso cultural da sociedade.

A recomendação ressalva que a participação na vida cultural é mediada na associação dos diferentes setores sociais ao nível da tomada de decisões, na sua execução e na avaliação das atividades. Para tal e entre as várias políticas setoriais, destaque para uma política de educação permanente que perspetive as melhorias qualitativas dos indivíduos em matéria de educação cultural e de formação artística, com o intuito de serem capazes de dominarem melhor as mudanças sociais e participarem no todo da vida comunitária.

Em matéria de medidas no quadro da ação cultural é de todo pertinente, salientar em matéria de animação sociocultural vincada na recomendação relativa à participação e ao contributo das massas populares na vida cultural proposta aos Estados-membros, no sentido de estes contribuirem para a formação de agentes de ação cultural, em particular, de animadores com o objetivo de difundirem a informação, a comunicação e a expressão, colocando em relação entre si os homens e organizando a mediação entre o público, as obras, os criadores e as instituições culturais.

Ainda neste quadro setorial, uma outra medida proposta é ao nível da faculdade de meios de intervenção que facilitem o apoio aos animadores espontâneos locais; o estimular as iniciativas e a participação levando à prática os processos de aprendizagem para essa ação. Outra recomendação passa pelo fomentar a utilização de instrumentos de comunicação e expressão que tenham valor pedagógico e potencial criador, proporcionando esses meios aos centros de animação e culturais.

No âmbito educativo é recomendado e sublinhamos, a relação sistemática do projeto cultural com o projeto educativo na perspetiva da educação permanente, envolvendo um conjunto de atores sociais; assegurar o acesso dos indivíduos ao saber, para tal, deverá ser tido em conta, a necessidade de criar condições sociais e económicas que garantam a participação na vida comunitária; e desenvolver sistematicamente os programas de educação cultural e de formação artística.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

A educação para a cultura: o papel da animação sociocultural

A educação para a cultura deverá acentar nas premissas da educação comunitária e da animação sociocultural.

A educação comunitária é um processo educativo permanente que, segundo Moacir Carneiro (1987), deriva de uma clara opção política, cujo objetivo é a organização comunitária  da vida associativa como processo de aprendizagem, de pedagogia do quotidiano visando a transformação social, os processos de mudança individual e coletiva pela educação não formal.

A primeira etapa da educação comunitária é a formação de uma consciência política no indivíduo e na comunidade. A educação comunitária é a educação para a comunidade, pela comunidade e com a comunidade. Esta trilogia do processo aplicada à educação comunitária, também o é, na animação sociocultural, ou seja, acenta na premissa de envolver para desenvolver nos indivíduos e nos grupos uma consciência cidadã crítica e transformadora. As associações locais são agentes privilegiados da educação comunitária.

Consideramos que o social fundamenta-se no capital humano. É na cultura enquanto matriz identitária individual e coletiva dos grupos e comunidades que os indivíduos projetam as suas histórias de vida, alicerçam as suas ações coletivas e constroem plataformas de participação ativa na vida comunitária. O educativo é a alavanca de processos informais não formais não formal de aprendizagens em múltiplos contextos comunitários.

Estamos crentes na necessária formação dos públicos para a cultura, em especial, para as artes. A familiaridade do animador sociocultural com as expressões e as práticas artísticas contribuirá para uma maior e real aproximação e formação de públicos. Os projetos de educação artística fundamentados nas metodologias da animação sociocultural deverão estar orientados para um processo de pedagogia cultural, para a literacia artística criando espaços de contextualização, de envolvimento, de descoberta, de experimentação e de participação dos sujeitos no processo e, não somente, um papel de fruição e de consumo culturais.

A proximidade do animador sociocultural com as expressões artísticas, quer pela sua formação inicial e contínua, quer pelas suas práticas através do trabalho desenvolvido com as comunidades e numa lógica de relação com os demais agentes (artísticos, educativos e outros agregados ao campo das artes) poderá ser um sério contributo para a formação dos públicos.

O animador sociocultural deve legitimamente contribuir de forma autónoma e pedagógica para a fruição cultural dos cidadãos, com recurso as mais variadas manifestações artísticas e culturais com ligação à comunidade. Os animadores socioculturais desempenham um papel de relevo na formação cultural comunitária com recurso aos processos de mediação e literacia artísticas através das aprendizagens não formais enquanto dinâmicas de inclusão social e cultural.