segunda-feira, 15 de março de 2010

Duas gerações de Animadores Socioculturais. Duas formas de pensar, de estar e de agir

A Animação Sociocultural em Portugal é representada por duas gerações distintas de Animadores com percursos muito diferentes, com um reportório do saber-fazer variado e enriquecido por um percurso singular no contexto vivenciado pelas práticas de Animação Sociocultural. Esta realidade não pode sobrepor-se à nova geração de Animadores que continuam a revindicar para o colectivo socioprofissional um espaço próprio de afirmação de uma identidade que continua a diluir-se entre os seus pares. Não podemos anular ou menosprezar o crescimento efectivo de iniciativas que procuram ser espaços de debate e de afirmação positiva de outras centralidades para as quais as diferentes modalidades e âmbitos da Animação são um contributo a valorizar na participação e na dignificação da cidadania activa.

As realidades sociocultural e política actuais são diferentes daquelas de uma ou duas décadas atrás. Hoje o mercado de trabalho é um mundo heterogéneo, ele continuará a exigir um perfil de trabalhador multifacetado, capaz de dar respostas céleres a problemáticas de diferentes graus de complexidade e de natureza distinta. Mas, na verdade há um modus operandi que continua a manter as características de outrora: o exercício profissional da Animação Sociocultural independentemente do sector de actividade, público, privado ou cooperativo.

Faço parte da nova geração de Animadores Socioculturais, daqueles que não iniciaram o exercício da Animação Sociocultural pela via prática/autodidacta, ou que ingressou na carreira através da prática no movimento associativo ou em qualquer outro organismo. Segui o percurso contrário, exerço a minha actividade em Animação Sociocultural pela via da formação académica, que deu-me a possibilidade de assimilar um conjunto de saberes, de conhecimentos teório-práticos que hoje ajudam-me a ser um Animador Sociocultural.

Recuso a ideia de que os Animadores que trabalham no sector público, nomeadamente, nas autarquias trabalham de acordo com o horário estabelecido para a administração pública. Exerço a minha actividade numa autarquia, e felizmente, estou em condições de contrariar a ideia de que o Animador Sociocultural numa autarquia é mais um funcionário público. Há a excepção à regra e muitos Animadores da minha geração que exercem funções no sector público são essa excepção. Já tive oportunidade neste blog de relatar de forma concisa a minha experiência profissional através da qual, tenho tido a possibilidade de desenvolver uma base de actividade sólida com grupos sectoriais e com diferentes comunidades, procurando sempre desenvolver um conjunto de saberes-fazeres. Um trabalho que muitas vezes revela-se ingrato, uma actividade profissional que continua a exigir a isenção de horário de saída.

Respeito os Animadores Socioculturais que antecederam a minha geração, reconheço-lhes trabalho em prol da Animação e dos Animadores. Este facto não anula de forma alguma a minha vontade em continuar a trilhar novos caminhos, a reflectir e a debater com outros Animadores Socioculturais questões centrais para a nossa geração. Cada um de nós tem a responsabilidade de contribuir para um futuro mais promissor, equilibrado e generoso para as gerações futuras. Um contributo que requer uma vontade de transformar com os outros aquilo que alguns insistem que não seremos capazes de consegui-lo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

A categorização socioprofissional dos Animadores Socioculturais

Os animadores sócio-culturais e os sistemas de representação de um corpo profissional: controvérsias em torno da delimitação de categorização profissional é o título de uma tese de mestrado, que de acordo com a sua autora procura "... descrever e interpretar as formas pelas quais os animadores socioculturais se envolvem em controvérsias, designadamente através dos seus porta-vozes, em torno da categorização socioprofissional e de um modo mais geral, mostrar, como esses actores, procuram o reconhecimento social e institucional da sua profissão."

A investigação apresentada testemunha uma realidade socioprofissional protagonizada pelos Animadores Socioculturais que, curiosamente, e de acordo com a nossa análise depois de uma leitura cuidada, parece expressar um sinal claro da divisão fracturante que separa duas gerações de Animadores, mas paradoxalmente, as une. Acompanho este "cisma" a alguns anos, e depois da leitura da tese fiquei mais convicto sobre as questões de fundo que marcam duas gerações de Animadores. As questões da categorização profissional dos Animadores Socioculturais ganha maior visibilidade nos congressos de Animação, onde as realidades que todos nós conhecemos são invocadas e as respostas continuam a ser as mesmas. Estará os Animadores Socioculturais eternamente condenados a não encontrarem soluções de consenso colectivo?

A investigação produzida apresenta um conjunto de matérias de relevante interesse para os Animadores Socioculturais que contribui significativamente para a construção de um conhecimento necessário que é desejável que progrida para um discurso crítico e actual sobre um conjunto de agentes e factos que continuarão a ser obstáculos à definição estatutária da categorização socioprofissional.

Alguns dos argumentos credivelmente fundamentados, agora apresentados, não são para nós, novidade. Congratulo-me pelo facto de em tempo oportuno, termos tido a mestria de trazer para a mesa do debate e da reflexão colectiva, ora denunciando, ora apresentado factos protagonizados pelos mais diversos actores sociais em matéria com referências (in)directas à Animação e aos Animadores Socioculturais. Muito do conteúdo deste blog é testemunho disso mesmo.

terça-feira, 2 de março de 2010

Informação

Atendendo ao facto do espaço colectivo que este blog disponibilizava a todos os leitores para a colocação de sugestões e pedidos de esclarecimentos ter sido utilizado de forma abusiva, com uma linguagem intolerável, manifesto sinal de sintomas crónicos de falta de educação e de respeito pelos outros, foi forçado a retirar de imediato esse espaço colectivo.

Em alternativa quem o desejar, poderá remeter-me um e-mail com sugestões, críticas, pedidos de esclarecimento/informação que será com todo o gosto que responderei. Ou se preferirem, sempre podem postar um comentário.

Obrigado pela compreensão.

segunda-feira, 1 de março de 2010

III Congresso Iberoamericano de Animação Sociocultural

A cidade de Buenos Aires na Argentina será a anfitreã do III Congresso Iberoamericano de Animação Sociocultural - "ENFOQUES, PRACTICAS Y PERSPECTIVAS EN ANIMACION SOCIOCULTURAL. Recreación, pedagogía social, educación popular, educación no formal" - que se realizará entre os dias 7 e 10 de Outubro de 2010. Esta iniciativa é organizada pela Rede Iberoamericana de Animação Sociocultural - Nodo RIA Argentina, com o objectivo de aprofundar aspectos conceptuais, metodológicos e organizativos das práticas de Animação Sociocultural.

Os interessados em apresentar uma comunicação ou poster no congresso deverão remeter ao comité organizativo até finais do mês de Maio um resumo da comunicação/ poster. Para obter mais informações, clique aqui.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Solidariedade

As palavras nunca traduziram o rasto de destruição, a perda de vidas humanas e bens materiais, resultado da catástrofe natural que se abateu sobre a Ilha da Madeira que impiedosamente roubou aos nossos concidadãos. Mais do que palavras, apenas quero expressar a minha solidariedade e as condulências às famílias que perderam os seus entes queridos.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Novas associações de Animadores. Necessidade ou oportunidade?

Assistimos ao desabrochar de uma linha de pensamento que procura materializar um debate há muito necessário entre os agentes da Animação Sociocultural. As diferentes estruturas satélite da APDASC, leia-se, delegações regionais, estão envolvidas nesta nova dinâmica que esperamos que seja o início de um processo de debate construtivo, mas mais importante, um espaço congregador de esforços para que se produza um documento instrutório que legitime publicamente e junto dos organismos competentes as reais preocupações dos Animadores Socioculturais.

É com optimismo que encaramos o futuro da Animação Sociocultural e a sua interdependência teórico-prática com um conjunto de outros temas sociais e culturais que continuarão a definir a linha de reflexão que se impõe aos Animadores no contexto da sua acção com as populações nos territórios locais.

O aparecimento de novos organismos associativos cujo objecto social reflicta o estudo da Animação Sociocultural e a legítima defesa e promoção dos interesses colectivos dos Animadores, é para nós, um sinal claro de pluralidade da democracia e de afirmação das especificidades da profissão do Animador Sociocultural que no seu percurso profissional precisa de adaptar metodologias de trabalho às diferentes realidades e especificidades regionais e locais.

Hoje vivemos confrontados com a necessidade sentida pelos Animadores em obterem respostas concretas perante cenários específicos que lhes são apresentados no seu quotidiano. Pensamos que o surgimento de outras estruturas associativas são favoráveis para um outro olhar e sentido de intervenção com os Animadores sobre matérias exclusivas da Animação Sociocultural. O aparecimento de novas associações de Animação não devem ser percepcionadas como uma ameaça à unidade dos Animadores, no sentido de dispersar possíveis associados, antes, devem ser vistas como parceiras privilegiadas num trabalho de campo tão necessário como urgente.

Continuamos a defender que a comunhão está na diversidade, uma comunhão que deve ser feita à luz dos princípios democráticos e do respeito pelo trabalho que cada instituição associativa é capaz de realizar em benefício do bem comum.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

3º Aniversário

O Animação Sociocultural e Insularidade comemora mais um ano de actividade na blogesfera. Um momento oportuno para reconhecer e agradecer o contributo que muitos leitores, entre eles, muitos Animadores deram através dos seus comentários e sugestões que alimentaram a discussão das ideias que procurei que fossem o espelho de uma preocupação permanente no que respeita à Animação Sociocultural e aos Animadores.

Foi de forma consciente e procurando realizar uma leitura crítica e de exercício da cidadania, que os temas discutidos/reflectidos não se cingiram na integra ao objecto deste blog - a Animação Sociocultural e aos seus agentes - a discussão temática foi abrangente mas sempre que possível e se justificasse, envolver a dimensão conceptual da Animação enquanto prática social transformadora de realidades socioculturais, associativas e educativas.

Continuarei a reflectir a Animação Sociocultural de forma integra, defendendo sempre os princípios e os valores que estão associados à mudança social. Procurarei fazer deste espaço virtual, o "exercício teórico" das minhas práticas de Animação Sociocultural no território insular.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Debate "Estatuto dos/as Animadores/as Socioculturais"

A Delegação Regional da Madeira da APDASC à semelhança da Direcção Nacional organizará o ciclo de debates sobre "A Profissão e Profissionalização dos Animadores Socioculturais".

O primeiro debate deste ciclo de encontros temáticos terá como tema central o "Estatuto dos/as Animadores/as Socioculturais", agendado para o dia 20 de Março (Sábado), pelas 18h, na FNAC Madeira. O convidado para esta conferência/debate é o Prof. Doutor Avelino Bento, coordenador da licenciatura em Animação Sociocultural da Escola Superior de Educação de Portalegre.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

(Des)investimento Cultural... Era uma vez o tempo de vacas gordas

O investimento público na cultura continua a padecer de uma política séria, de um programa de desenvolvimento sociocultural com objectivos políticos definidos, um investimento, que a meu ver, passa por um plano de acções concretizáveis e discutidas com os agentes culturais e educativos, e não uma agenda de intenções que nunca passarão de ideias soltas e talvez acabarão num qualquer programa político-partidário.

Face à actual crise socioeconómica que vivemos, uma crise com profundas repercussões no tecido social, que continua a arrastar, quotidianamente, centenas de pessoas para o limiar da pobreza, compreendo e aceito que o fraco ou quase nulo investimento cultural que estamos a assistir de uma forma flagrante e prejudicial para o trabalho que muitas instituições, nomeadamente, as colectividades culturais vinham realizando com os diferentes grupos populacionais, seja uma discriminação positiva para a área das políticas sociais.

Não posso deixar de manifestar sérias reservas quando somos confrontados com um desinvestimento político consciente em matéria de políticas culturais. Esta acção não só é nociva para a acção cultural desenvolvida em sectores de proximidade da vida comunitária, mas também, para as políticas e práticas de Animação Sociocultural no contexto da intervenção local. A Animação Sociocultural também sai profundamente lesada do ponto de vista de projectos e actividades de educação para a cultura, enfim, é um contributo negativo para a pedagogia cultural.

Há que tirar as devidas ilações deste novo panorama económico para a cultura. Apraz-me dizer, que falharam os critérios de apoio aos projectos culturais, falharam as políticas de acção cultural sustentadas nas realidades locais e comprometidas com o território cultural, os órgãos executivos governamentais não tiveram a coragem de seriar o investimento para uma verdadeira política de desenvolvimento e Animação Sociocultural.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Regulamentação da carreira do Animador. Um caso ibérico

A regulamentação da carreira do Animador Sociocultural, matéria que tem alimentado debates, reflexões e vários escritos, é um tema central e transversal a um conjunto de preocupações que têm que ser contextualizadas na acção associativa e nas práticas profissionais dos Animadores Socioculturais. É matéria que ultrapassa as fronteiras do território português e da língua de Camões.

Foi com surpresa que tomei conhecimento do Manifiesto por la regulación de la animación sociocultural en el ambito formal y no formal. El TASOC y su Perfil profesional da autoria da RED ESPAÑOLA DE TECNICOS SUPERIORES EN ANIMACION SOCIOCULTURAL (TASOC) Y TECNICOS SUPERIORES EN INTEGRACION SOCIAL (TISOC). Este é um documento que subscrevo por solidariedade com os colegas espanhóis, porque entendo que a regulamentação do Estatuto do Animador Sociocultural, ao qual está associado matérias como a carreira, o perfil profissional e o código deontológico é necessária e urgente face às novas políticas de formação e emprego.

O objecto central do manifesto da TASOC e da TISOC alude para a criação de legislação que defina claramente os requisitos legais para o acesso ao exercício da profissão de Animador Sociocultural, descriminando de forma clara e objectiva, o nível das habilitações académicas necessárias para exercer tais funções. Esta realidade é semelhante há vivida pelos Animadores Socioculturais em Portugal.

O "manifiesto" espanhol é para mim, um sinal claro de que os argumentos que se têm esgrimido ao longo dos anos, no sentido de desvalorizar ou até desacreditar a necessidade do Estatuto do Animador Sociocultural merece uma acção mais vincada junto das instituições com responsabilidades políticas e legislativas sobre matéria laboral. É evidente que as realidades sociolaborais dos Animadores portugueses e espanhóis são diferentes no conteúdo e na forma, mas no plano genérico poder-se-á trocar ideias sobre uma matéria que começa a ganhar contornos proeminentes no território ibérico.