domingo, 12 de janeiro de 2014

Somar tempo ao tempo

O conceito «tempo» é a palavra-chave que deverá estar sempre presente no léxico dos animadores. O lembrete diário que recorda-nos, obrigatoriamente, que não podemos falhar deviam ser automáticos na emissão de alertas para a nossa falta de tempo, esse bem precioso para muitos, mas desprezado por tantos outros.

Nós, animadores precisamos de somar tempo ao tempo.

Precisamos de tempo para escutar os outros, estar com eles, acompanhá-los no percurso inicial de um projeto profissional, associativo, ou apenas, para ouvi-los falar sobre os seus sonhos, desafios, medos e resistências perante a vida, face ao mercado de trabalho que «peneira» os fortes e escraviza os mais indefesos.  

Por estes dias foi confrontado com a falta de tempo. Este foi o momento ideal para perceber que precisamos de parar e escutar o mundo em nosso redor. Na verdade, não avançamos, não somos melhores agentes de mudança, se não houver em cada um de nós, o sentimento de pertença a uma comunidade. Mas, é ainda mais verdade, que não somos animadores no sentido pleno da palavra se não formos humildes o suficiente, e pararmos para escutar os outros, sermos capazes de oferecer-lhes algum do nosso tempo.

Ser animador é ser capaz de somar tempo ao tempo; dispor de tempo para estar com o grupo e a comunidade, ser altruísta para compreender os problemas comuns ao grupo, para ser capaz de dar o corpo ao manifesto por uma pessoa.

É tempo de sermos humanos e de enfrentar os desafios ao lado dos outros, porque a mudança só é possível com o coletivo. 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Um tema periférico para o debate em animação sociocultural

A discussão em torno de matérias como a profissão, o estatuto, o perfil e as competências dos animadores socioculturais são temas recorrentes no discurso dos próprios agentes da animação. Não é novidade que há planos curriculares de formação em animação sociocultural diversificados no conteúdo que, certamente encontram acolhimento junto das dezenas de candidatos. Mas, talvez esse seja o menor dos problemas, tanto mais, que há cursos de animação sociocultural a encerrar por falta de candidatos. Esta realidade é um facto, e como tal, exige uma análise cuidada.

Continuamos a questionar sobre o perfil do animador sociocultural. Há um perfil modelo? Não haverá, sim, um conjunto de requisitos técnicos e humanos, que no seu todo complementam o perfil desejado para o animador? Qual o perfil profissional que os animadores desejam? Antes, devemos questionar que modelo formativo para os agentes da animação.

Os paradigmas de desenvolvimento alteraram-se na última década. Estamos preparados para enfrentar o futuro? Estaremos conscientes de que é imperioso desenvolver novas estratégias de participação social, política e cultural? Estaremos conscientes de que o modelo económico que vigorou foi o responsável pelo colapso nacional? Estaremos preparados para um novo modelo de desenvolvimento económico?

É necessário direcionar o foco de atenção para a sociedade civil e os problemas reais do país que procura, seriamente, libertar-se do constrangimento financeiro a que está sujeito. Quero ouvir os animadores da minha geração; quero saber que contributos poderão eles dar para o novo modelo de desenvolvimento que precisamos de empreender nas nossas comunidades.

Aparentemente, para alguns, estas são questões do debate político-partidário, para nós animadores socioculturais são questões atuais, com sentido estratégico para o desenvolvimento das comunidades locais. As necessidades primárias mantêm-se e a sua satisfação é vital para a manutenção da coesão social.

É importante que a discussão sobre o futuro hoje seja um desígnio dos animadores socioculturais. 
Precisamos de encontrar soluções para os problemas coletivos, hoje mais do que nunca, é necessário o fortalecimento do tecido social, da coesão dos grupos, da identidade cultural da comunidade. Estou convicto que a animação sociocultural também poderá dar contributos positivos para o desenvolvimento e o bem-estar de todos.

O modelo de desenvolvimento perpetuado até aqui foi importante, mas sem sustentabilidade. Agora todos nós somos chamados a contribuir para o futuro coletivo, pois, não há futuro sem partilha. Para muitos animadores, este poderá ser um tema periférico para o debate em animação sociocultural, para muitos outros, talvez um assunto marginal. 

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Feliz Natal



O Natal é tempo de paz, de harmonia social e de encontro de familiares e amigos. É tempo de renovação das esperanças perdidas, de fortalecimento da amizade e de acreditar que somos comunidade, capaz de construir outras vias de desenvolvimento social e cultural. Façamos do Natal, a verdadeira Festa. 

Votos de um feliz e santo Natal. 

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Práticas de Animação

Está disponível o novo número da revista Práticas de Animação. Este é um projeto partilhado por muitos e participado por investigadores, docentes e animadores portugueses, espanhóis e brasileiros que, com o seu contributo técnico-científico e de militância acrescentam valor com o propósito de contribuírem para a dinâmica da discussão, das práticas e dos domínios de intervenção da animação sociocultural. É de salientar a narrativa construída em alguns escritos agora publicados, resultado da visão crítica e das práticas de animação com os grupos.

A identidade editorial da revista é um processo consolidado, graças, ao acreditar dos colaboradores num projeto cuja identidade tem o signo da insularidade, mas que conquistou o seu próprio espaço no quadro (in)formativo no contexto da animação sociocultural. O presente número da Práticas de Animação reúne um conjunto de contributos passíveis de complementar os saberes e as aprendizagens no campo da animação sociocultural, do lazer, da ação social, da educação e do tempo livre. Estes são domínios de investigação e intervenção privilegiados para o trabalho dos animadores na ação transformadora com as comunidades. 

Creio que este este projeto editorial, com seis números editados, é um contributo e um recurso importante para os agentes da sociocultura. Estamos convictos do longo percurso que há a fazer para a dignificação estatutária do projeto, mas certos dos passos firmados pela afirmação da animação sociocultural e dos animadores no território insular.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Mensagem alusiva ao Dia Internacional do Voluntariado

O Dia Internacional do Voluntariado foi proclamado a 5 de dezembro de 1985, pela Organização das Nações Unidas (ONU). A Confederação Portuguesa do Voluntariado divulgou uma mensagem alusiva à efeméride. 

«Nestes últimos  anos a crise económica e financeira tornou-se o centro das preocupações de toda a sociedade portuguesa. De uma maneira ou de outra, todos fomos afetados e, de certo modo, despertámos a nossa consciência para muitos cidadãos e cidadãs que vivem numa situação reveladora de empobrecimento.

Para muitos a presença dos voluntários e voluntárias é sinónimo de estima, amizade, conforto, atenção. Os voluntários e voluntárias oferecem, com o seu compromisso e criatividade, uma resposta às necessidades da nossa sociedade quotidiana. Por muito pequeno que pareça o contributo, a verdade é que ele faz toda a diferença. Depois de, no ano de 2011, termos vivido intensamente a temática do voluntariado parece que só faz sentido falarmos agora de cidadania. Como se depois de um grande impulso de participação cívica na organização desta grande "casa" que habitamos, pudéssemos agora arrumá-la e cimentar ideias, projetos e iniciativas.

Hoje celebra-se esta dádiva, a da entrega gratuita ao outro. Celebra-se a disponibilidade, o serviço e a solidariedade como valores de cidadania essenciais à sociedade para a construção do bem comum.

Parece claro a toda a sociedade e às estruturas de poder que o voluntariado é uma forma única de estar em comunidade. Faltará, por certo, muito caminho a fazer para todos nós. Voluntários, organizações, empresas, comunidades escolares, governos. Todos temos de perceber que o voluntariado ultrapassa as barreiras do envolvimento temporário. Ser voluntário é colocar ao serviço do bem comum o tempo, as capacidades, os recursos e isto também deve ser reconhecido por todos e exige um envolvimento comprometido de todas as partes que beneficiam deste trabalho, muitas vezes, silencioso. 

Saudamos todos os voluntários e voluntárias que, nas mais diversas áreas da nossa sociedade e com as mais diversas inspirações ideológicas ou crenças, generosamente se entregam, se gastam e se envolvem, diariamente, num trabalho que serve de exemplo a todos. Bem hajam.» 

(Eugénio José da Cruz Fonseca)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O problema da falta de consumo e de participação culturais

Os dados divulgados no relatório do Eurobarómetro coloca Portugal na cauda da Europa, no que respeita à participação cultural dos cidadãos. Talvez, um dos sintomas da «patologia cultural» que mais contribui para o decréscimo do consumo cultural esteja relacionado com a crise económico-financeira, sintoma que alavanca um conjunto de fatores que explique o desinteresse luso pela cultura e traga à luz do dia, outros elementos expositivos.

É necessário balizar dois conceitos fundamentais: o consumo participação culturais. O consumo está diretamente ligado ao poder de compra dos cidadãos, aos hábitos culturais adquiridos pelos processos de socialização e educativo, pelo meio envolvente, e sem dúvida pelas dinâmicas que as entidades públicas e associativas são capazes de potenciar nos territórios culturais. A participação pressupõe um envolvimento ativo das pessoas em processos de fruição e criação culturais que estão, diretamente, associados à promoção de projetos artísticos, alguns deles de elevado valor cultural desenvolvidos por coletividades locais.

A participação na vida cultural é um problema social transversal às políticas públicas de cultura e educação. A educação deve ser entendida e percecionada pelos agentes culturais e pelos políticos como um eixo central e transversal da ação cultural. Há a ausência de uma pedagogia cultural palpável em algumas instituições educativas nos territórios municipais, também o mesmo, acontece em relação à educação em alguns organismos com um papel importante na descentralização e democratização culturais. A perceção sociopolítica do papel da cultura para a formação integral dos indivíduos é inexistente. Este é o ponto de partida para um trabalho contínuo e de envolvimento de um conjunto de atores da cultura e da educação, é uma tarefa de todos.

O investimento cultural é manifestamente pobre, muitas das as instituições de vocação cultural e artística continuam a depender dos subsídios dos organismos públicos para manter uma atividade regular. Não sou totalmente contra a revisão da forma de atribuição dos apoios públicos, sou pela exigência de maior rigor, ou seja, há que encontrar formas alternativas e mais ativas das instituições culturais contribuírem para o enriquecimento da comunidade através de implementação de dinâmicas que, em alguns casos, possam revitalizar os processos de educação para a cultura, noutros, desenvolverem a vocação de pedagogas culturais. Estou convicto que a realidade poderá ser transformada no território municipal, ou seja, é responsabilidade da sociedade civil contribuir para a transformação sociocultural.

É preciso pensar a cultura a longo prazo, desenhar um programa de educação para a cultura que envolva ativamente as associações e centros culturais, as galerias de arte, as bibliotecas municipais, a escola, as autarquias, os centros cívicos e os muitos agentes culturais e educativos. Este é um desafio que precisa de ser replicado na escala local, um processo que implica uma união de facto, da educação e da cultura com a realidade concreta da comunidade. É urgente reforçar o papel da educação artística, trazer para a rua os artistas, os agentes culturais, povoar os espaços públicos, formar e educar os públicos desde a idade escolar, envolvendo-os em projetos culturais através de parcerias com as instituições culturais e artísticas, provocar uma mudança de paradigma de desenvolvimento. 

Haverá verdadeiro desenvolvimento sustentável quando houver uma consciência coletiva real do papel da cultura. A dimensão cultural comunitária não pode ser entendida como algo abstrato, pelo contrário, é o «fermento» da identidade de cada pessoa.

Precisamos urgentemente de parar, escutar e transformar.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O reconhecimento do valor das aprendizagens não formal e informal

O reconhecimento das aprendizagens não formal e informal é um marco político e complementar a favor da argumentação sobre o valor educativo das práticas de educação não formal e informal. É consensual o reconhecimento dos contextos educativos e socioculturais em que este modelo educativo se desenvolve, talvez não seja pacífica, a lista nominal dos agentes da educação não formal, na qual figura os animadores socioeducativos, designação da Comissão Europeia relativa aos agentes que trabalham com jovens. É importante o reconhecimento político da «educação fora da escola», mas também, é fundamental o reconhecimento do papel que os agentes do não formal desenvolvem em prol dos grupos.

A Resolução do Conselho e dos Representantes dos Governos dos Estados-Membros, reunidos no Conselho, sobre o reconhecimento do valor da aprendizagem não formal e informal no domínio da juventude europeia refere que as atividades de aprendizagens não formal e informal no domínio da juventude são complementares do sistema de ensino e de formação formais, estão centradas nas necessidades dos jovens e desenvolvem-se numa base voluntária e participada. O Conselho e os Representantes dos Governos reconhecem que as aprendizagens não formal e informal são fundamentais no processo de aprendizagem, desenvolvem a apetência para a formação ao longo da vida e a integração social dos jovens.

O Conselho da União Europeia na Recomendação do Conselho de 20 de dezembro de 2012, sobre a validação da aprendizagem não formal e informal considera que as organizações de juventude, os organismos de ensino e formação, os animadores de juventude e as organizações da sociedade civil são intervenientes com um papel importante no processo de aprendizagens não formal e informal, nomeadamente, na oferta de oportunidades de formação.

A educação não formal possibilita que as pessoas e os grupos desenvolvam a sua autonomia pela participação, afirmando-se como uma competência essencial da cidadania ativa. Morand-Aymon (2007) advoga que a filosofia da educação não formal fundamenta-se na formação do espírito crítico, defendendo que um cidadão informado será mais responsável e autónomo nas suas escolhas e associa o modelo educativo não formal aos primeiros ideais da educação popular e da educação permanente. 

A educação não formal é um modelo educativo de proximidade porque desenvolve-se a partir das necessidades de cada pessoa, das suas práticas e experiências; é uma educação permanente participativa porque reforça as competências sociais e gera processos de aprendizagem participados por todos, onde é privilegiado a autoformação. A via não formal da educação facilita a tomada de consciência para a mudança social.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

XVII Congresso Internacional de Animação Sociocultural


A Associação Portuguesa para o Desenvolvimento da Animação Sócio-Cultural (APDASC) organiza o XVII Congresso Internacional de Animação Sociocultural que realiza-se nos dias 15 e 16 de novembro próximo, no Cineteatro de Mértola. A temática em debate será «Animação Sociocultural, Cidadania e Política Europeia».

Há semelhança de congressos anteriores organizados pela APDASC, a temática do XVII congresso está associada à efeméride «Ano Europeu dos Cidadãos» 2013. A APDASC afirma que o congresso assume-se «(…) em estreita consonância com os núcleos decisores europeus e que discutirá as problemáticas em torno dessa cidadania europeia». Os objetivos do congresso estão alocados à problematização sobre a relação e do contributo da animação sociocultural com a economia social e o desenvolvimento sustentável; o impacto das políticas sociais europeias na sociedade e nas instituições, que são os contextos de intervenção dos animadores. A interculturalidade e as minorias sociais na europa e as questões agregadas à formação e ao futuro da profissão do animador no espaço europeu são objetivos que estarão na mesa do debate durante o congresso.

Os dois dias de trabalhos do XVII Congresso Internacional de Animação Sociocultural dividem-se pelos seguintes painéis: economia social e desenvolvimento sustentável, multiculturalidade/interculturalidade – o animador face à diversidade cultural, políticas sociais/agentes comunitários, a formação e futuro da profissão no espaço europeu, práticas de animação em contextos religiosos, a animação sociocultural e a promoção dos cidadãos com deficiência.


 Mais informações em www.congressoapdasc.com



sábado, 19 de outubro de 2013

«PAIDEIA – Animação Artística nas Escolas Secundárias»

A escola enquanto espaço aberto à formação integral dos jovens, também é espaço para a sua participação em projetos culturais no domínio do «extra-escolar». A escola tem um papel fundamental de intervenção nos processos de educação para a cultura e as artes, em particular. É importante congregar energias com base na cooperação das organizações educativas e culturais da sociedade civil, isto porque, a escola deverá ser uma instituição aberta à participação da comunidade, mas mais importante, é estar aberta à participação juvenil.

A escola à semelhança do movimento associativo também pode ser um espaço para a aprendizagem social pela participação, um estádio de desenvolvimento que poderá acontecer com a participação dos jovens em projetos no seio escolar que sustentem a dimensão da criatividade, da liberdade e autonomia dos jovens. Falamos de projetos que sejam complementares aos currículos, onde o processo educativo assente em metodologias de aprendizagem pela educação não formal, valorizadoras da implicação dos jovens no processo.  

O programa «PAIDEIA – Animação Artística nas Escolas Secundárias» é um ótimo exemplo de um projeto de animação sociocultural em meio escolar, apoiado na metodologia e princípios da educação não formal. O «PAIDEIA» foi criado pela Portaria n.º 58/97, mas implementado anteriormente, em 1993 pelo Clube Português de Artes e Ideias, responsável pela produção do projeto. A referida Portaria atribuiu a gestão do programa ao Instituto Português da Juventude que previa a possibilidade da participação de associações juvenis e outros organismos na gestão do programa.

Jorge Barreto Xavier (1993:4) referindo-se ao projeto «PAIDEIA» diz acreditar 

(…) na sua utilidade na área específica das Artes, do estímulo à criatividade, ao espírito crítico, à facilitação do acesso a certos universos reais e imaginários. 
Não é só na Indústria os nos mercados financeiros que se decide Portugal. Decide-se, lado a lado, com a Educação e a Cultura. (...)
De que nos servirão as tecnologias se não tivermos homens imaginativos e críticos para as manobrar?


O projeto é uma proposta de atividades culturais para o público estudantil do ensino secundário, proporcionando espaços de fruição cultural aos jovens e atividades no domínio das artes plásticas, banda desenhada, ilustração, literatura, teatro, fotografia, música e dança. Parece-nos ser um excelente contributo para a aproximação da via educativa da cultural, uma forma concreta de educar para as artes e de formação de públicos esclarecidos e críticos, capaz de «(…) despertar novos interesses dentro e fora da escola» (id., 12).