quarta-feira, 31 de julho de 2013

A animação sociocultural na encruzilhada da realidade sociopolítica (I)

A animação sociocultural e os animadores enquanto fomentadores da participação comunitária são protagonistas de reflexões espontâneas, apaixonadas, e por vezes eloquentes. É preciso focar a reflexão e posterior ação nos tempos sociais que vivemos, eles são bafejados por ventos de mudança e de oportunidades que empelam os animadores, enquanto militantes da cidadania ativa comprometida com a democracia e o bem comum, a projetarem no presente aquilo que poderá ser novos âmbitos de intervenção sociocultural.

O que é a animação sociocultural? Quem são os animadores? São duas questões que se revelam de difícil resposta. A identidade socioprofissional é a matriz da ação que se desvaneceu no tempo.

Uma premissa nuclear para fundamentar a animação desde a perspetiva dos animadores é que conheçam o seu ADN profissional, ou serão incapazes de contribuir individual e coletivamente para descodificar os sinais sociais da sociedade atual e compreender as suas dinâmicas. Na verdade, quantificar e tentar definir as funções do animador sociocultural é um exercício académico que exige um conhecimento da realidade profissional. Neste domínio de estudo, têm que ser os próprios agentes da mudança social a construírem o discurso teórico da animação e consequentemente a definirem as suas funções, enquanto profissionais especializados na área.

Aos animadores socioculturais é exigido autenticidade, atitude ativa e crítica na intervenção face às realidades socioculturais, políticas e educativas no entorno dos territórios de intervenção. É esperado dos animadores um discurso técnico-científico com o objetivo de transmitir numa linguagem persuasiva através da sua ação o que é a animação sociocultural e os seus territórios de intervenção.  

O prof. Avelino Bento e muito bem, desafiou os animadores a refletirem sobre as suas práticas. Não posso estar mais de acordo. Há a ausência de uma reflexão alargada e comprometida por parte dos animadores sobre as suas práticas, um exercício que exige a conjugação de dois vetores estruturantes: a teoria e a ação. Não menos verdade é a falta de um sentido de responsabilidade pela dignificação da profissão materializada em grupos de pressão, com objetivos claros e com uma linha de orientação estratégica definida para o longo prazo. Falta a coesão grupal que nunca conseguiu vingar entre os animadores.

É total responsabilidade dos animadores a materialização do conceito de animação sociocultural, para isso, impõe-se que soltem as amarras do porto seguro e se aventurem, com a convicção de que poderão contribuir positivamente para a mudança do perceção social e política sobre o trabalho dos animadores socioculturais. Definir a animação sociocultural é uma condição para construir socialmente e identitária da profissão. 

Não é legítimo, digo mesmo, é confuso reivindicar um estatuto profissional quando os próprios interessados não refletem sobre as suas práticas com o objetivo de sintetizarem o conceito matricial da animação sociocultural à luz das nossas realidades sociais, educativas, económicas, políticas e culturais. É fundamental agir em função de uma atitude pró-ativa e de uma consciência crítica.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Recepção de artigos para a revista Práticas de Animação

A revista Práticas de Animação é um projeto editorial que tem privilegiado a reflexão sobre o corpus teórico e as práticas de animação sociocultural, numa perspetiva interdisciplinar e de reflexão plural partilhada por animadores, educadores, investigadores e outros atores sociais com experiências e vivências profissionais que permitem posicionarem-se no campo teórico-prático da animação e projetar as suas reflexões no seio de uma comunidade aberta e democrática como a dos animadores socioculturais que continua a dinamizar a discussão sobre a animação e as suas práticas.

É nosso desiderato reunir um conjunto diversificado de contributos que aclarem sobre as dinâmicas da animação e sejam achegas para a reflexão sobre o papel da animação sociocultural nos múltiplos contextos de intervenção. Os artigos poderão versar sobre a animação sociocultural, socioeducativa, turística, o ócio, o lazer e os tempos livres, as políticas culturais, a pedagogia social e a educação sociocomunitária, entre outros domínios de investigação e intervenção privilegiados para a ação dos animadores.

Neste quadro de realização convidamos todos os interessados a colaborar no próximo número da revista. Para tal poderão enviar os seus contributos até o próximo mês de setembro de 2013, para o e-mail: revistapraticasdeanimacao@gmail.com

quarta-feira, 3 de julho de 2013

O reconhecimento europeu sobre a animação juvenil (III)

O Conselho e os Representantes dos Governos dos Estados-Membros convidam a Comissão e os Estados-Membros no quadro das suas competências a criarem condições mais favoráveis para o desenvolvimento, apoio e implementação da animação juvenil, bem como, reconhecer e fortalecer o seu papel na sociedade. Outra recomendação está associada com o apoio ao desenvolvimento de novas estratégias, ou melhoria das existentes para desenvolver as capacidades dos animadores e dirigentes juvenis, e apoiar a sociedade civil na implementação de modelos ajustados de formação de animadores /dirigentes.

O reconhecimento e o aumento qualitativo da animação juvenil poderão ser rentabilizados, caso haja, a identificação das competências e métodos partilhados pelos agentes da animação e as diversas formas de intervenção. A empregabilidade jovem é um desafio permanente e audaz, quando ele é meta para os animadores e dirigentes juvenis e a sua mobilidade através de um melhor (re)conhecimento das suas qualificações e capacidades adquiridas pelas práticas.  

A Resolução do Conselho e dos Representantes dos Governos dos Estados-Membros também sugere a promoção e apoio à investigação no domínio da animação juvenil e da política de juventude, e a disponibilização de informação sobre a animação e torna-la acessível através de mecanismos de informação, aumentando as sinergias e a complementaridade entre iniciativas da União Europeia, do Conselho da Europa e de outros organismos europeus, nacionais, regionais e locais. Esta medida é reforçada com a promoção de oportunidades de intercâmbio, cooperação em rede de animadores/ dirigentes juvenis, decisores políticos e investigadores no domínio da juventude.

A sociedade civil com afetação direta ao trabalho socioeducativo é incentivada a aumentar a plataforma de acessibilidade da animação juvenil a todas as crianças e jovens, em especial, as que têm menos oportunidades, bem como, promover a formação de animadores e dirigentes que exercem a sua atividade no domínio da juventude, com o intuito de garantir a qualidade das práticas de intervenção. A avaliação das abordagens, dos métodos e práticas de animação juvenil é uma das recomendações dirigidas à sociedade civil, que é desafiada a continuar a investir no desenvolvimento inovador através de novas iniciativas sustentadas nas experiências reais das crianças e jovens, dos animadores e dirigentes.

É salientada a importância do reconhecimento do papel da animação juvenil como plataforma de oportunidades de aprendizagem não formal. A animação deverá estar integrada nas políticas e programas de juventude por forma a possibilitar a todos os jovens, a aquisição e desenvolvimento de capacidades e competências necessárias à sociedade e à economia de 2020 e mais além.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

O reconhecimento europeu sobre a animação juvenil (II)

É consensual que a animação contribui para a definição e concretização de políticas de juventude em áreas como a aprendizagem ao longo da vida, a inclusão social e a criação de emprego através da capacitação social e empreendedora dos jovens. Estas valias deverão ser ratificadas formalmente pelos governos locais, regionais e nacionais, através do reconhecimento formal e da validação das competências adquiridas pelos processos de educação não formal.

A Resolução do Conselho e dos Representantes dos Estados-Membros reforçam a necessária complementaridade de implicar em matéria de animação juvenil os decisores políticos, os dirigentes e animadores juvenis, investigadores e outros atores sociais associados de alguma forma à juventude. Esta pretensão das organizações europeias poderá materializar-se através dos Conselhos Municipais de Juventude enquanto órgãos consultivos dos decisores políticos e plataformas de democracia representativa e participativa.

Os conselhos municipais são ferramentas privilegiadas para o exercício da cidadania ativa, teoricamente, é a partir do diálogo estruturado que emergirá contributos válidos sustentados na realidade concreta vivida pela juventude, ser a voz irreverente que denúncia as necessidades e alerta para os desafios que os jovens enfrentam como grupo social, desafios como a exclusão social e o desemprego jovem. O Conselho Municipal de Juventude é um ator social personificado pelo coletivo, a quem é-lhe incumbida a responsabilidade, quando não instrumentalizado partidariamente, de contribuir para a definição de políticas locais de animação juvenil.

É recomendado aos Estados-Membros que promovam estratégias de apoio e remoção dos obstáculos à animação juvenil. Os apoios poderão ser financeiros, de recursos ou infra estruturas. Outras formas de apoio poderão passar pelo envolvimento das organizações governamentais e não governamentais locais e regionais na assunção de um papel mais ativo no desenvolvimento, no apoio e na implementação da animação juvenil. Os Estados-Membros também poderão contribuir no apoio e desenvolvimento da animação juvenil na implementação do quadro renovado, extensível na concretização dos objetivos dos diversos campos de intervenção.

O Conselho e os Representantes dos Estados-Membros convidam a Comissão a desenvolver estudos para mapear a diversidade, a abrangência e o impacto que a animação juvenil assume na União Europeia. Outro desafio está associado ao desenvolvimento de capacidades e competências dos animadores e dirigentes juvenis, bem como, o reconhecimento da aprendizagem não formal via animação juvenil proporcionando experiências de aprendizagem com a mobilidade aos animadores e dirigentes. Desenvolver instrumentos que atestem as competências dos animadores e dirigentes juvenis que ajudem a reconhecer e a avaliar a qualidade da animação juvenil na Europa. 

Estas recomendações devem ter acolhimento por parte dos decisores políticos que em parceria com as organizações da sociedade civil apoiem o desenvolvimento de estratégias para a sustentabilidade de dinâmicas locais de animação juvenil. Os paradigmas de desenvolvimento social e de bem-estar comunitário podem ser trabalhados na perspetiva da animação. O protagonismo tem de estar do lado dos jovens cidadãos, são eles que no exercício da sua cidadania e na rebeldia das suas ideias que contribuirão para uma política de juventude responsável e de inclusão social.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

O reconhecimento europeu sobre a animação juvenil (I)

As políticas setoriais para a juventude produzidas no seio da União Europeia constituem os antecedentes da «Resolução do Conselho e dos Representantes dos Governos dos Estados-Membros, reunidos no Conselho, sobre animação juvenil». Pode ler-se no documento que os antecedentes políticos de tal Resolução estão associados à ação da União Europeia que deve ter por objetivo o incentivo ao «… desenvolvimento de programas de intercâmbio para jovens e animadores socioeducativos ( …) e a participação dos jovens na vida democrática» (2010: 1). Outros propósitos são o programa «Juventude em acção» e a resolução sobre um quadro renovado para a cooperação europeia no domínio da juventude (2010-2018).

Para o Conselho a animação juvenil «(…) é uma expressão lata que abrange uma grande diversidade de actividades de natureza social, cultural, educativa ou política, efectuadas por jovens, com e para os jovens. Nestas actividades incluem-se ainda, cada vez mais, o desporto e os serviços aos jovens.» (2010: 1). O Conselho e os representantes dos Governos dos Estados-Membros reconhecem que a animação juvenil pertence ao domínio da educação extraescolar e está sustentada em dinâmicas de aprendizagem informal e não formal e na participação voluntária. As atividades são geridas autonomamente e/ou conjuntamente sob a orientação educativa ou pedagógica de animadores e dirigentes juvenis.

De acordo com a Resolução do Conselho e dos Representantes dos Governos dos Estados-Membros a animação juvenil é organizada e exercida por organizações dirigidas por e para jovens, grupos informais ou entidades públicas, aos níveis local, regional, nacional e europeu conforme o contexto comunitário, histórico, social e político de realização da animação juvenil; mediante o objetivo de envolver e empoderar todas as crianças e jovens, principalmente, os com menos oportunidades; o empenho de animadores e dirigentes juvenis; as organizações, serviços ou prestadores governamentais ou não, independentemente de serem ou não, dirigidos por jovens. Saliente-se que as autoridades locais e regionais também desempenham um papel fundamental no apoio e desenvolvimento local e regional da animação juvenil.

A animação juvenil complementa o âmbito da educação não formal, possibilitando aos jovens as mais variadas aprendizagens informais e não formais, de assunção de responsabilidades na execução de ações individuais e no coletivo, e conferindo-lhes o papel de protagonistas no seu próprio processo de desenvolvimento, dotando-os de autonomia, de espírito empreendor e de emancipação social. A animação juvenil contribui para o fortalecimento das relações grupais, para a capacitação pessoal e profissional e na tomada de decisões.

O valor social que a animação juvenil acresce na vida dos jovens pode ser mensurável ao nível da sua participação autónoma nos processos de desenvolvimento grupal, na responsabilização social através do voluntariado, e consequentemente, da cidadania ativa através do exercício dum um diálogo estruturado, intergeracional e intercultural como elo de reforço da coesão social comunitária. A aludida Resolução sobre a animação juvenil no contexto europeu aponta para o contributo que a animação poderá assumir no desenvolvimento da criatividade, da sensibilização sociocultural, do empreendedorismo e da inovação dos jovens. 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

A animação sociocultural e o território educativo

Os territórios educativos enquanto espaços de educação formal, informal e não formal são lugares de dinâmicas sociais e culturais de crianças e jovens, são espaços de criação de identidade e de cultura, capazes de proporcionarem experiências partilhadas. A escola como território privilegiado da educação formal tem de ser observada como agente de mudança social e, consequentemente, também cenário de políticas de animação sociocultural, ou seja, a animação enquanto pedagogia transformadora implícita aos processos geradores de participação cidadã e de desenvolvimento comunitário tem que ser potencializada através das dinâmicas educativas.

Neste quadro de realização é pertinente focar o projeto de enriquecimento curricular «Mercado Quinhentista» dinamizado numa primeira edição apenas pela comunidade educativa da Escola Básica e Secundária de Machico. Nos passados dias 07, 08 e 09 de junho, realizou-se a 8ª edição do projeto cuja temática foi «Machiquo Villa Manuelina», numa organização da Câmara Municipal de Machico e da Escola Básica e Secundária de Machico. Uma organização que conta com a participação ativa de escolas, organizações educativas e culturais locais e regionais, partilhando dos objetivos e acrescentando valores culturais. À luz da matriz conceptual da animação sociocultural penso ser correto considerar o «Mercado Quinhentista» um projeto de animação, porque ele é fortemente envolvente e redesenhado pela participação comunitária a cada edição.

O projeto de recriação histórica extravasou o território da educação formal, mas mantêm-se fiel aos objetivos traçados pelos docentes responsáveis pela paternidade do «Mercado Quinhentista» e a uma metodologia de pedagogia participativa, de envolvência e coresponsabilidade de todos os atores que corporizam o projeto. O envolvimento comunitário através da participação ativa das organizações educativas, culturais e sociais, do comércio local e a emergência de novas dinâmicas turístico-culturais associadas ao «Mercado Quinhentista» revelam práticas transformadoras de uma cidadania alheia à vida cultural, com o emergir de uma pedagogia da participação cidadã voluntária, da promoção da cultura e da história, como ativos culturais decisivos para o alavancar da economia local mediadas por processos educativos nos contextos da educação formal e da não formal.  

Este é um exemplo da necessária e urgente complementaridade de políticas de animação sociocultural que precisam de germinar nos territórios educativos. É preciso construir uma cidadania ativa alicerçada na democracia da cultura e da responsabilidade socioeducativa partilhada por todos os atores sociais. Envolver é um verbo de ação, e deverá sê-lo na construção de políticas educativas e culturais, numa relação de proximidade e de compromisso. A animação sociocultural enquanto pedagogia participativa e transformadora através da ação humanizadora de homens e mulheres conscientes do seu papel cidadão só será efetiva, dinâmica e construtora de um tecido socialmente equilibrado, se houver processos mobilizadores da participação de crianças e jovens em projetos que garantam equidade no acesso à cultura e à educação.

A escola de hoje tem que proporcionar experiências de cidadania cultural, de transmissão de valores democráticos e de construção de um diálogo estruturado. A animação sociocultural e a educação deverão ser o suporte de políticas sustentáveis que visem o desenvolvimento comunitário pela participação de todos os atores sociais. É necessário reforçar o diálogo e a cooperação entre a escola e a comunidade envolvente, uma dinâmica que não pode ser entendida como perda da autonomia, mas como a dinamização do território educativo não formal. Este é um espaço privilegiado para a pedagogia dos valores e da cidadania.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Colóquio «Animação Sociocultural com População Sem-abrigo: Contextos e Práticas»


A Associação Integrar promove nos dias 29 e 30 de maio de 2013, na Casa da Cultura de Coimbra, o III Colóquio subordinado ao tema «Animação Sociocultural com população Sem-abrigo: Contextos e Práticas» e workshops.

O colóquio pretende ser a plataforma de discussão relativa à contextualização da animação, ao enquadramento da problemática e à apresentação de projetos desenvolvidos em diferentes zonas geográficas do país, que através da animação promovem a inclusão de grupos desfavorecidos. Os painéis sobre os quais estará centrada a dinâmica do colóquio serão a «A Animação Sociocultural», «Animação e Situação de Sem-abrigo», «Animação Sociocultural naInclusão de Grupos Desfavorecidos» e «Boas Práticas: Projectos Promotores de Inclusão».

Os workshops que serão dinamizados no âmbito do colóquio são: «Experienciar o Real: Jogos de Interacção», «Expressões Artísticas», «Projecto de Integração Cultural» e «Estratégias de Planeamento e desenvolvimento de Iniciativas de Animação com Pessoas em Situação de Sem-abrigo». Para mais informação consulte a página oficial da Associação Integrar.





segunda-feira, 6 de maio de 2013

A animação sociocultural em tempos de incerteza

O tempo sociopolítico em que estamos envolvidos parece-me ideal para refletir a animação sociocultural como pedagogia comunitária e de alavancagem das consciências individuais e coletivas. É verdade que a conjugação do presente e do futuro são de grandes e anestesiantes incertezas, mas também é verdade, que a esperança e a capacidade transformadora da ação coletiva perante as desigualdades que minam a coesão social são focos de resistência e de alento numa jornada de resiliência social.

Os animadores socioculturais têm a nobre missão de contribuir para a mudança social, para o alentar da esperança das pessoas nas instituições. É tempo das organizações contribuírem para uma cidadania inclusiva e participativa, fomentarem processos de (des)envolvimento comunitário e capacitarem os cidadãos para que assumam um protagonismo responsável e uma ação sustentada na procura do bem-estar da comunidade. Este tem que ser um projeto político e social, este é talvez, um exercício crítico e de responsabilidade acrescida para todos.

A discussão sobre a animação sociocultural e os seus âmbitos de intervenção têm que superar as reflexões clássicas restritas aos fóruns académicos. É desejável que sejamos capazes de alavancar novos espaços e tempos para a intervenção da animação. As realidades sociopolítica, cultural e económica presentes são laboratórios para o advento de possíveis novos âmbitos de intervenção em animação sociocultural. Estou em crer em não estar a forçar novos espaços de ação, pelo contrário, o contexto social está a favorecê-lo. É preciso construir respostas a partir do tecido vivo da comunidade. As respostas têm que nascer das pessoas e para as pessoas.

Que contributos podem os animadores socioculturais dar num contexto de intervenção para mitigar a crise atual? Esta é a questão de partida, aparentemente simples, mas complexa do ponto de vista dos recursos comunitários. É inteligente e perspicaz introduzir o tema no debate académico, ou então podemos continuar a nos questionar sobre a pertinência dos processos de intervenção na perspetiva metodológica e pedagógica da animação sociocultural e as respostas serão as clássicas.

Os direitos laborais e as respostas insipientes do mercado de trabalho, o papel da educação no mundo de hoje e a formação para a cidadania ativa, as desigualdades sociais, a cultura como plataforma das identidades e de coesão social e territorial, o regresso ao mundo rural e as perspetivas de futuro, a austeridade como resposta política e a aniquilação do ser pessoa e do ser comunidade, a promoção do bem comum como desafio e responsabilidade de todos, estes são alguns temas pertinentes para uma reflexão à luz dos princípios da animação sociocultural.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

A argumentação do Conselho Nacional de Juventude a propósito do reconhecimento da educação não formal (II)

Equacionar o reconhecimento político e social da educação não formal contribuirá seriamente para a definição e construção social da figura do educador e/ou do animador dos processos educativos não formais. Esta matéria mais do que o reconhecimento, exige a validação política das práticas educativas desenvolvidas com e pelos jovens nos seus espaços de sociabilidade. Acreditamos que o reconhecimento político é um dos pressupostos válidos e necessários para o elencar de ações  das organizações da sociedade civil comprometidas com a cidadania transformadora dos jovens, mas a filiação da profissão do educador em educação não formal não pode restringir-se apenas aos processos educativos dinamizados no quadro do associativismo jovem.

A animação sociocultural também é uma estratégia educativa no contexto não formal, que carece de reconhecimento político. As metodologias de intervenção em educação não formal e em animação são ferramentas de transformação e de participação comunitária. Entendemos que o desafio também passa pela consolidação das práticas.

O grupo de trabalho do Conselho Nacional de Juventude faz algumas recomendações com vista ao reconhecimento da educação não formal no plano das políticas europeias, onde seja definida uma estratégia de reconhecimento da educação não formal em todas as suas dimensões, a criação de estruturas e a disponibilização de recursos próprios. Os processos de reconhecimento formal e político no território europeu «…devem ser inclusivos e participados, envolvendo os/as principais agentes da ENF [educação não formal]» (2013: 7).

O desiderato do reconhecimento e visibilidade social das metodologias educativas da educação não formal também deverá conceber-se ao nível das políticas nacionais, regionais e locais, nos pressupostos definidos para as políticas europeias.

A educação não formal tem que ser reconhecida como um processo que multiplica as oportunidades criadas para os beneficiários desenvolverem competências complementárias às adquiridas através da educação formal. É recomendado ainda o reconhecimento formal dos promotores de atividades de educação não formal por apoiarem e capacitarem grupos desfavorecidos, bem como pela promoção da cidadania ativa no desenvolvimento comunitário. A aprendizagem ao longo da vida é plataforma de desenvolvimento da educação não formal, o que pressupõe um diálogo estruturado com os outros domínios da educação.

No plano de ação há um enfoque para o reconhecimento da educação não formal, nomeadamente, «Iniciar o trabalho político de redação e adoção de um texto legal pelo Governo …» (2013: 9), no sentido de serem adotadas medidas concretas que visem o reconhecimento formal e sociopolítico aos níveis nacional, regional e local. Outro objetivo está centrado no apoio ao desenvolvimento de políticas no quadro das administrações central, regional e local que visem o reconhecimento da educação não formal.

O trabalho de parceria é vital para o prosseguimento do reconhecimento social e político da educação não formal. A colaboração entre investigadores, políticos, técnicos e dirigentes associativos e outros agentes deverá ser estimulada através de atividades conjuntas. O trabalho cooperativo com vista ao reconhecimento da educação não formal deverá entre outras medidas, envolver todos os stakeholders e «Promover o desenvolvimento de mecanismos de cooperação local com autarquias e entidades locais» (2013: 11).

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A argumentação do Conselho Nacional de Juventude a propósito do reconhecimento da educação não formal (I)

A educação não formal enquanto sistema educativo proporciona aos aprendentes um conjunto de aprendizagens não formais e de capacitação dos jovens com competências sociais, profissionais e de desenvolvimento pessoal. Esta abordagem educativa realiza-se fora da escola, paralelamente ao sistema de educação formal, sem a obrigatoriedade do sistema formal e não termina, obrigatoriamente, em certificação. A educação não formal possibilita aos jovens a aquisição de valores democráticos e o desenvolvimento de processos de transformação pessoal e de construção da própria cidadania.

O Grupo de Trabalho de Educação Não Formal do Conselho Nacional de Juventude publicou o documento Tomada de Posição Reconhecimento da Educação Não Formal, um suporte teórico necessário e pertinente para a discussão alargada sobre o que é a educação não formal; os desafios associados; recomendações e um leque de propostas de ação, no quadro do reconhecimento daquele processo educativo.

Um dos desafios da educação não formal é a compreensão do conceito enquanto processo educativo e a diferenciação da educação formal; informal e da aprendizagem ao longo da vida. O grupo de trabalho do Conselho Nacional de Juventude refere que a educação não formal tem possibilitado o desenvolvimento de valores e competências técnicas e cognitivas fomentadoras de um processo real de transformação pessoal, onde os participantes são atores ativos no processo de aprendizagem. O reconhecimento da educação não formal tem quatro dimensões: reconhecimento social, político, autorreconhecimento e o reconhecimento formal.

O desafio de desenvolver parcerias, de valorizar e reconhecer a importância do educador em educação não formal são propósitos enunciados no documento. A educação não formal exige o desenvolvimento de parcerias com os diferentes atores sociais: organizações governamentais e não governamentais, educadores, sindicatos, professores, entre outras organizações e agentes. O desafio exige uma forte ligação a outros domínios políticos, nomeadamente, ao desporto, à cultura, à educação e à saúde (2013: 4).

«Apesar de existirem diferentes atores/atrizes a desenvolverem o papel de promotores de processos de aprendizagem não formal, existe um entendimento alargado sobre um conceito aglutinador que é o/a do/a educador/a, e que compreende: formadores/as, facilitadores/as, animadores/as, monitores/as, e trabalhadores/as socioeducativos em prol dos jovens (youth workers). Este entendimento resulta do facto de os diferentes atores/atrizes identificados integrarem em si o domínio das metodologias, abordagens e princípios próprios da ENF [educação não formal].» (2013: 5).

O Grupo de Trabalho de Educação Não Formal argumenta que o reconhecimento do papel dos educadores em educação não formal exige a compreensão da importância da responsabilidade educativa que têm sobre os jovens; do efeito multiplicador que associado aos valores da democracia, tolerância e interculturalidade; na facilitação dos processos de transformação pessoal e social; na capacitação dos jovens em geral e daqueles que integram as associações juvenis, em particular; na adaptação às necessidades e objetivos do grupo, e na humanização e proximidade dos processos educativos. Estes são alguns desígnios que no nosso entender têm correspondência com as práticas profissionais e voluntárias dos animadores socioculturais no trabalho quotidiano. A educação não formal é um processo educativo que desenvolve-se paralelamente às práticas de animação. O processo educativo em educação não formal e a animação sociocultural são cânones de práticas de cidadania ativa que deverá implicar os diferentes atores políticos e sociais.